Por que estudar Filosofia e a redação no ENEM

É uma pergunta constante o motivo pelo qual as pessoas devem estudar Filosofia, principalmente quando se trata da educação básica. Há muito o que se falar sobre isso. Googleando encontramos uma diversidade de respostas tão grande quanto são as respostas que buscam determinar o que é filosofia: ou, como costuma se interpretar a tão famosa passagem de Kant (“Não se ensina Filosofia, mas a filosofar”), pensar sobre a natureza da Filosofia já é filosofar.

Em termos mais práticos, enquanto professor de Ensino Médio, vejo que o valor de todas as disciplinas parece estar muito associado ao que elas podem oferecer para o ingresso em um curso universitário, seja via ENEM ou vestibular. No caso do Rio Grande do Sul, até onde sei, só a UFSM cobra Filosofia em seus exames admissionais e, em termos de ENEM, a disciplina é vista como tendo uma figuratividade secundária frente a Geografia ou História.

Isso se torna ainda mais problemático quando pensamos em termos profissionais: um salário inicial de R$ 1.187,00 por 40horas semanais não parece ser tão interessante em comparação com as 11 profissões com maior salário no Brasil. E o cenário fica ainda mais crítico quando vemos uma pesquisa onde essa é a profissão que figura em quarto lugar entre as piores no mercado de trabalho.

Para além de toda essa conversa sobre perspectivas profissionais, o blogue do filósofo Stephen Law apresenta várias razões para se estudar Filosofia e, dentre elas, o surpreendente são os números: estudantes de Filosofia possuem um altíssimo ranking em testes, superando Física e Matemática no que tange ao pensamento quantitativo e superando língua inglesa na parte escrita.

Mas estou falando de tudo isso porque ministrei nessa semana  uma oficina sobre a redação no ENEM de 2012 e iniciei falando na importância da Filosofia para a redação. É claro que a matriz de competências da redação atribui peso a Língua Portuguesa quando cobra o Domínio da Língua Culta (Competência I). Mas em todas as outras Competências o estudo da Filosofia é fundamental. Compreender qual é o tema, diferenciando-o do assunto (Competência II) passa por saber interpretar que “assunto” refere-se a um tópico amplo (como liberdade de expressão, por exemplo) e “tema” refere-se a uma delimitação do “assunto” (como o papel da liberdade de expressão para a construção de uma sociedade mais justa, para seguir com o exemplo).

Já nas Competências III e IV, sem um estudo de Lógica (Formal e Informal) o estudante terá muito mais dificuldade em atingir uma boa pontuação porque precisa construir, de modo consciente, um texto coeso e coerente. Na Competência V que exige do estudante uma proposta de solução para o problema, também a Ética e a Filosofia Política tem um papel importante.

Em suma, construir um texto dissertativo-argumentativo, como pede a redação do ENEM 2012, é muito mais fácil se os estudantes tiverem boas aulas de Filosofia que privilegiem a argumentação e o pensamento sobre o discurso.

Em tempo: não se trata aqui de privilegiar determinado campo de conhecimento em detrimento de outros mas sim de estabelecer qual o papel da Filosofia na construção dessas competências. Claramente na Competência V o estudo de Sociologia tem um papel fundamental.

Caso tenha interesse, baixe aqui o power point da oficina que ministrei.

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2 ideias sobre “Por que estudar Filosofia e a redação no ENEM

  1. Rodrigo

    Leo, em primeiro lugar, parabéns pela iniciativa!
    Estou de acordo com a sua visão sobre a relação do ensino de filosofia e a redação do Enem. Tive a oportunidade de trabalhar com essa perspectiva no “Cursinho pré-vestibular dos alunos da engenharia” (CEUE) durante o ano passado, através da disciplina de “Atualidades”. Foi uma ótima experiência que me permitiu ampliar os horizontes de uma das (talvez a principal) coisas que tenho aprendido em filosofia: a capacidade de ler e redigir textos argumentativos.
    Tenho algum material sobre determinados temas que poderia disponibilizar (depois de uma revisão) caso tenha interesse.
    Gostaria ainda de fazer um rápido relato de uma dificuldade que tive com a minha experiência: a primeira questão que me fiz foi: “o que eu, como estudante de filosofia, poderia ensinar em uma disciplina de “Atualidades”?” Eu não havia recebido nenhuma informação sobre a disciplina, inédita no cursinho desde então, além do nome. Pesquisando, descobri que muitos cursinhos ofereciam essa disciplina, que temas eram abordados e a maneira como faziam. Muito material sobre isso consiste em uma coletânea de informações abreviadas, cujo papel do aluno seria, digamos, “decorá-las”. Então, percebi que a contribuição que estava ao meu alcance dar teria de ser algo relacionado ao modo como essas informações eram transmitidas. Bem, isso está “ok” quanto ao que nós podemos fazer, enquanto filosofadores.
    Mas a dificuldade é que parece ser preciso um domínio supostamente extra-filosófico de capacidade, com respeito ao conhecimento dos fatos e das informações. Por exemplo, eu gastava muito tempo e esforço procurando me informar o máximo possível sobre um assunto específico. É como se precisássemos de uma matéria-bruta para labutar, mas que é uma matéria que temos dificuldade para traçar seus contornos, uma vez que carecemos de um conhecimento empírico da sociedade, sua história e geo-política global. Saca?
    Bem, ainda estou tateando sobre isso, mas creio que esse é um ponto a ser discutido.
    Mais uma vez, parabéns!

    Abraço;

    Resposta
    1. leonardoruivo Autor do post

      Rodrigo, valeu por vir aqui e comentar. Não conhecia essa disciplina de Atualidades assim como tomei contato nessa semana de todo um programa do governo federal (ainda não tive tempo de me informar mais sobre isso) relativo ao ensino de Direitos Humanos para o ensino superior. Esse tipo de situação me faz pensar no nível de defasagem entre nossa formação e a “demanda social” do professor de Filosofia, ou seja, não existe um pensamento sistemático e integrado sobre o que devemos aprender para ensinar. Sei que isso não é nada de novo mas cada vez mais, por conta da quantidade de profissionais licenciados no mercado, nos deparamos com demandas que nos são estranhas. Talvez um professor de Geografia, História ou Sociologia fosse o profissional mais apto a dar conta dessas disciplinas mas isso me parece estranho. Estranho no sentido de: por que há um constrangimento da Filosofia em lidar com temas correntes? Só essa discussão já daria pano prá manga mas posso te indicar fontes que acho bem interessantes. Uma delas é o filósofo Vladimir Safatle que busca em seus artigos na Folha de São Paulo e na Carta Capital articular ideias “do dia” com uma reflexão filosófica. Outra é do pessoal do site distropia.wordpress.com que criaram a postagem semanal “Digno de nota” a fim de mostrar como a Filosofia tem algo a dizer sobre o que ocorre. Claro que há toda uma dificuldade aí, como tu bem apontou, que vai desde o método para escolher as informações até o tratamento dado – problemas que dariam uma ótima discussão. Quanto ao material que tu tens, se estiveres disposto a revisá-lo aqui é um espaço que poderias publicizá-lo. Abração!

      Resposta

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