Romain Gavras, um perfil do “Videomaker da Juventude”

Foi em Maio de 2008 quando, olhando o Estadão, me deparei com a seguinte reportagem: “Clipe ultraviolento da dupla Justice é proibido na TV”. Na época, o que me chamou a atenção foi menos a manchete do fato de que a censura era feita sob a justificativa de que o vídeo fazia: “apologia da violência, um crime reprimido pela lei”. E de que havia um filósofo, professor da New York University,Eduardo Subirats,  que compunha a linha dos censores: “É mais um filme dessa mescla de cinismo, irresponsabilidade e genocídio que hoje define as políticas globais sufragadas pela União Européia e os Estados Unidos da América. Anunciam algo muito pior que as visões apocalípticas de Orwell ou Huxley.” Em suma: trata-se de uma discussão pública sobre a autonomia da arte frente aos padrões ético morais.

Quando busquei mais informações sobre o clipe, descobi que a figura centralizadora da polêmica era o diretor Romain Gavras, filho do aclamado diretor Costa Gravas. Isso porque tanto no clipe da banda Justice, “Stress“, quanto no clipe da cantora M.I.A., “Born Free“, a violência parecia ser o conteúdo  que fazia a função de conectar o espectador a produção.

Mas o que Romain tinha a dizer sobre tudo isso? Encontramos a seguinte declaração em uma entrevista para a Folha de São Paulo: “O que gera tanto mal-estar é que as histórias dos dois clipes [da banda Justice e da cantora M.I.A] não deixam claro para as pessoas o que elas devem pensar. Para quem está acostumado a ser conduzido a uma conclusão, isso é chocante. As pessoas se sentem bem com histórias que apontam: “Isso é bom” ou “Isso é mau”.

A declaração fica mais polêmica quando observamos o contexto: o clipe Stress, ao mostrar jovens praticando violência gratuita e o espectador, acompanhando o corrido em primeira pessoa, Romain Gavras parece colocar o espectador dentro dos conflitos ocorridos na França no mesmo período. Na citada entrevista a Folha, o diretor se justifica: “a violência real é pior”. Mas isso não parece escusar o diretor de criar um espaço ambíguo, onde realidade e ficção se misturam. E essa mistura também foi interpretada de modo ambíguo pela crítica.

Observando a carreira de Gavras vemos que sua intenção, desde 1995, ao fundar o coletivo Kourtrajmé, era incorporar as sensibilidades que o hip-hop e o graffiti poderiam trazer para os clipes. A revista O grito, por exemplo, não poupa elogios a esse approach: trata-se de um “videomaker da juventude” porque incorpora a crítica social do pai (Costa Gavras) ao cenário contemporâneo cada vez mais distópico dentro das periferias européias.

Born Free, por sua vez, retrata de modo hipnótico uma suposta situação de limpeza fenotípica. O clipe inicia com uma ação policial na qual pessoas ruivas, do sexo masculino, vão sendo recolhidas e jogadas em um ônibus para então correrem por um campo minado. Uma grande jogada de marketing com a violência? Um crítico social que conhece as estratégias para colocar um discurso notadamente periférico no centro?

O fato é que, dentre suas produções recentes, (da divulgação da marca Adidas a um documentário sobre as loucuras que ocorrem nos shows e bastidores da banda Justice), as de 2012 “No Church in the Wild”, dos rappers Kanye West e Jay-Z e “Bad Girls”, em outra parceria com M.I.A, parecem retomar a tentativa de uma produção engajada.

No primeiro, é difícil pensar o ambiente do vídeo sem pensar nos protestos do movimento Occupy Wall Street e dos confrontos do povo com a polícia. Assim com é difícil ver o clipe da M.I.A., vencedor de dois VMAs, como desconectado das lutas cada pela ampliação dos direitos das mulheres participarem no espaço público na Arábia Saudita – no vídeo há cenas de uma prática proibida, mulheres dirigindo carros vestidas com o niqab. Mas, novamente, o clipe abriu divergência entre os críticos: apresenta um estereótipo ou formula uma crítica social?

É por conta dessa ambiguidade e da trajetória de Romain Gavras que resolvi apresentar um resumo a partir de uma série de recortes que falam da biografia do diretor. Em meu próximo post, pretendo falar sobre como é possível realizar uma apropriação desse tipo de produção estética contemporânea, a partir de atividades na disciplina de Filosofia no Ensino Médio.

Para quem quiser acompanhar mais dos trabalhos do diretor indico o perfil dele nas redes Vimeo e MySpace.

Anúncios

3 ideias sobre “Romain Gavras, um perfil do “Videomaker da Juventude”

  1. Júlia Dutra de Carvalho

    Interessante que o artista em questão vem seguindo as pistas que os jovens no mundo deixam, e em parte se atentarmos para os clips percebemos um certo padrão dos jovens representados e de uma certa estética musical e visual. Sigo na expectativa de ler a sugestão de trabalho de estética com o material!

    Resposta
    1. Leonardo Ruivo Autor do post

      Legal! Esse é um ponto bastante interessante da construção visual do Romain – como captar um discurso sobre a juventude. Há também uma outra banda que gosto muito e que também vai nessa linha (mas com uma construção estético-visual bastante distinta) – o arcade fire. Talvez esse seja um excelente paralelo para se pensar produções que se propõe a pensar o discurso macro juventude….

      Resposta
  2. Pingback: Estética da Violência | Filosofia e Ensino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s