A escola pode pensar a escola? Uma proposta de currículo

Ontem, dia 15 de Outubro foi o dia do professor e, como de costume,  trouxe consigo reflexões sobre as dificuldades da carreira (baixos salários, desvalorização institucional….). Mas há uma reflexão que também é digna de nota e que diz respeito as instituições escolares. É nessa via que o excelente vídeo (infelizmente só em inglês) de Sir Ken Robinson, Changing education paradigms, percorre. Esse material lembrou-me de uma apresentação que fiz no II Seminário de Educação do Colégio Militar de Porto Alegre, cujo título foi “A Filosofia pensando a Educação e a Escola com estudantes do Ensino Médio”.

O objetivo geral da comunicação foi apresentar um programa de estudos (que realizei com meus estudantes) para as aulas de Filosofia do 1o ano do Ensino Médio. Tal proposta se caracteriza por ser temática e aplicada: temática porque visa investigar problemas de epistemologia; e, aplicada porque direciona os problemas sobre a natureza do conhecimento à educação e ao espaço escolar. Ainda que aqui não seja o espaço mais adequado para defender pormenorizadamente a fundamentação teórica dessa proposta, vou aproveitar para pontuar os argumentos centrais que utilizei para defender um currículo de Filosofia temático e aplicado.

Primeiramente a ideia de um currículo temático e aplicado pode parecer estranha aos professores de Filosofia uma vez que nossos documentos (PCNEM e OCN) insistem mais na História da Filosofia que em uma proposta temática (vide as OCN, 2006, p. 17). Contudo, é digno de nota que, antes de histórica, a atividade filosófica é essencialmente discursiva e argumentativa. Por esse motivo é que vemos inúmeros autores defendendo uma ênfase nos temas e/ou problemas filosóficos. É claro que uma abordagem essencialmente temática corre o risco de perder de vista o pensamento que a tradição ocidental construiu. Mas aqui não se trata de um reducionismo, e sim uma ênfase: algo plenamente legítimo quando pretendemos mostrar a especificidade discursiva e argumentativa da Filosofia aliada ao desenvolvimento das competências e habilidades que cabem a disciplina desenvolver.

Também se poderia buscar objetar tal proposta dizendo que a Filosofia, por ser discursiva e argumentativa, deve se restringir ao campo conceitual. Mas não se trata de negar o caráter conceitual e, sim, insistir no fato de que os conceitos são apropriados em teorias e que essas teorias fundamentam instituições e que, muitas vezes, existe um abismo entre o ideal teórico e a operacionalidade institucional. Um exemplo concreto sobre isso é o fato de todos os documentos escolares insistirem no exercício do pensamento crítico mas nenhum deles dispor de um espaço legítimo para os jovens compreenderem o que é uma escola e por que ela é necessária (e quando falo em espaço legítimo não me refiro a um sermão do professor de Matemática ou do Diretor do colégio).

Mas a ideia de uma matéria para pensar a escola também pode parecer estranha aos professores em geral, e também a todas as instituições escolares que conheço. Contudo é ainda mais estranho essa ideia parecer estranha afinal, duvido que exista algum estudante que nunca tenha se perguntado sobre a legitimidade de um campo de conhecimento ou de uma instituição de ensino. Nesse sentido há um teor foucaultiano no insistir em pensar com os estudantes uma instituição que lhes é apresentada como natural: são previstos pelo menos 11 anos dentro das instituições escolares, no mais das vezes, quadrada, enfileirada e com uma pessoa ali na frente determinando o que é ou o que não é conhecimento legítimo – e, mesmo com todo esse tempo turmas inteiras podem sair hoje da escola sem saber a justificativa de (pelo menos) essas situações. Ora, se a Filosofia trata exatamente de deslocar as percepções comuns do nosso dia a dia investigando criticamente condições de possibilidade, não vejo sentido em deixar de lado uma instituição tida como natural e que (paradoxalmente?) está claramente em crise – seja via tentativa  de reforma do quadro curricular, seja porque parece cada vez mais difícil refletir sobre a finalidade da escola.

No segundo momento da apresentação foi mostrado o cronograma da proposta, dividido em três eixos com duração de um trimestre cada um. No primeiro eixo o objetivo é investigar os conceitos de ensino, educação e escola. Em se tratando de uma disciplina para o 1o ano do Ensino Médio, (e supondo que os estudantes desconhecem a natureza da Filosofia), iniciou-se insistindo no pensamento e atitude críticas. Essas ferramentas são importantes para o segundo passo: observar a disjunção entre ensino e educação. Se o ensino é uma atividade essencial para a vida humana (efetivada via aprendizagem), a educação é um conceito ambíguo porque se refere ao caráter cognitivo do ensino mas também a uma atitude moral, o portar-se bem (não gritar em lugares públicos, vestir-se adequadamente para as diversas ocasiões, etc). O interessante em insistir na disjunção entre educação e ensino é perceber que a escola surge como uma instituição que visa efetivar a educação em seu sentido ambíguo: educar as almas através do ensino do conhecimento (por isso o termo aluno, no latim, refere-se aquele sem luz; professor, por sua vez, quem professa, iluminando o caminho dessas almas).

Após essa primeira investigação conceitual e de como uma instituição é gerada para efetivar uma ideia, o segundo trimestre visa a relação entre epistemologia e educação. Isso foi feito a partir de três diferentes concepções epistemológicas (Racionalismo, Empirismo e Criticismo) observando como cada uma delas apresenta diferentes ideais de professor e de educação. Ao final do segundo trimestre a proposta é investigar os PCNEM para compreender a natureza epistemológica dos campos de conhecimento que os estudantes vivem no Ensino Médio (Linguagens, Códigos, Ciências Naturais, Matemática e Ciências Humanas), relacionando-os com aquelas concepções anteriormente vistas.

O último trimestre é o momento para fazer notar a relação entre política e educação. Aqui o objetivo é analisar como diferentes concepções políticas geram diferentes concepções educacionais – ou mesmo, instituições educacionais.Cabe notar que o foco não é a Filosofia Política em si mas a interseção dessa com ideais culturais. O percurso inicia com uma divisão didática entre Reformistas e Aperfeiçoadores, ou seja, aqueles filósofos que defenderam que a  tarefa da educação é a de mudar a sociedade e aqueles que defenderam que a educação é um meio para harmonizar o indivíduo e a sociedade idealizada. Mesmo que no detalhe essa divisão não seja completamente justa, o interessante nessa última parte do percurso é salientar os diferentes modelos de pensamento ainda que sob uma mesma tese, ao mesmo tempo em que proporciona uma reflexão mais direta sobre as instituições educacionais e suas finalidades.

As referências da proposta estão no power point que pode ser acessado aqui.

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