Hannah Arendt, por Margaret Von Trotta: um retrato da Filosofia

hannah-arendtHá alguns dias assisti o novo filme de Margarethe Von Trotta, Hannah Arendt, e gostaria de escrever aqui sobre alguns motivos pelos quais os professores de Filosofia deveriam discuti-lo com seus estudantes.

Em geral há três motivos pelos quais um professor de Filosofia leva um filme para a sala de aula: ou se quer enfatizar determinado elemento histórico significativo para o pensamento filosófico (p.ex, o filme Amistad), ou se quer enfatizar determinado problema filosófico (p.ex., O Senhor das Moscas), ou se quer enfatizar determinado pensamento de um sujeito histórico significativo (como no filme que retrata a vida do pintor Jackson Pollock). Aqui eu gostaria de sugerir outro ponto de vista para pensar e utilizar o filme Hanna Arendt em sala de aula.

O recorte do filme

Antes de abordarmos o filme em si, gostaria de apontar um fato “dos bastidores” que chama atenção: ao invés de retratar no filme um grande trecho da vida de Hannah Arendt, a diretora escolheu apresentar “o período que começa com a captura de Eichmann e termina logo após a publicação de seu [de Arendt] livro, Eichmann em Jerusalém – Um relato da Banalidade do Mal”*. O livro, originalmente publicado em 1963, é a compilação de cinco artigos que Arendt escreveu sobre o julgamento de Adolf Eichmann, ocorrido na cidade de Israel em 1961. O filme, por sua vez, dá destaque a dois argumentos do livro.

ArquivoExibirUm deles diz respeito a ideia da banalidade do mal. Arendt argumenta que após a II Guerra Mundial surge uma nova figura do mal, cujo protagonista exemplar ela vê em Eichmann: um sujeito central para o governo nazista que não justificava seus atos através de uma defesa firme e consistente daquela ideologia. Sua melhor justificativa encontrava-se na auto-imagem de um cidadão modelo, seguidor de ordens e leis, que agia por amor a pátria e que, portanto, honrava seu país. Um sujeito pronto para expedir clichês e jargões comuns. Ou seja, o funcionário da “solução final” (o extermínio dos Judeus) era um burocrata medíocre, não um monstro que incorporava a crueldade dos seus atos.

O segundo argumento do livro explorado no filme diz respeito ao papel da comunidade judaica européia no processo da ascensão totalitária. Eichmann é apresentado no livro como um entusiasta do sionismo (fator determinante para as soluções anteriores ao extermínio), responsável por muitas vezes negociar com as lideranças dessas comunidades. Tais lideranças, critica a autora, compactuaram no processo supondo uma espécie de solução utilitária, mas se tivessem negado negociações com a SS, talvez o extermínio tivesse sido menor.

O filme inicia com a captura de Eichmann e a contratação da filósofa, pela revista The New Yorker, para cobrir o julgamento em Jerusalém. Ainda que o motivo do filme seja o processo que Hannah Arendt passou da contratação à publicação do julgamento de Eichmann, ele também pretende “revelar o seu [de Arendt] caráter e sua personalidade (…) como mulher, amante e, (…) como amiga”*. Sabemos que sustentar essa dupla motivação é bastante difícil. Inúmeros são os filmes com traços biográficos que, ou tornam-se enfadonhos por conta da dificuldade em transpor o discurso da prosa para o discurso cinematográfico, ou recaem em uma leitura psicologista na qual o processo intelectual encontra-se subjugado a elementos subjetivos (família, sociedade, traumas pessoais, etc…). Mas Von Trotta consegue, de maneira muito singular, produzir um filme onde o traço psicologista das dificuldades que um processo intelectual enfrenta dá lugar ao difícil processo intelectual da geração de um pensamento filosófico genuíno.

Um fator que sustenta essa leitura é a recusa do filme em apresentar os personagens. A primeira cena, onde aparece a captura de Eichmann, é completamente descontextualizada para um espectador desavisado. Do mesmo modo como o são as figuras principais que compõe a narrativa: Hans Jonas, Heinrich Blücher, Kurt Blumenfeld, Martin Heidegger e Mary McCarthy. Ainda que esses elementos biográficos estejam ausentes, o espectador desavisado não fica perdido. Isso porque o filme é bem sucedido em sustentar a narrativa de um difícil processo de construção intelectual. Na verdade, tal problema é interno ao filme e, por sua vez, pode ser uma potente ferramenta para um professor de Filosofia: mostrar o que o processo intelectual filosófico tem de singular em relação com o processo histórico no qual ele se origina. Voltarei a isso mais tarde. Por ora, quero insistir na construção interna do filme a partir da análise de algumas cenas.

Do olhar biográfico à construção da figura do filósofo

hannah_01A vida com Martin Heidegger, embora presente em vários trechos do filme, se dá a partir da memória de Arendt. Esse processo é apresentado por Von Trotta através de cenas recortadas, por vezes pontuais, muito mais marcadas pela performance que pelo discurso de Heidegger. Mesmo nos raros momentos em que o filósofo alemão discorre algumas de suas ideias (quando na companhia de Arendt ou em sala de aula para os estudantes), ainda assim o foco da câmera recai sobre o movimento do seu rosto (lábios, sombrancelhas e olhos) e sobre o jogo de cena. Jogo de cena que é constituinte, sim, de uma memória amorosa em conflito: entre um Heidegger enquanto ser amado, com uma presença singular guardada na memória da filósofa, e um Heidegger que discursa em favor do nazismo e se diz, frente à política, como uma criança (e que, portanto, recusa uma retratação pública de sua simpatia com o Terceiro Heich).

O cotidiano de Hannah Arendt no filme é marcado pelas discussões em tom provocativo com seus amigos. Tal elemento é substantivo para que o espectador centralize seu olhar sobre a formação do pensamento da autora. Ao invés de recorrer a um clichê, Von Trotta não constrói as ideias de Arendt a partir de citações do livro, colocadas artificialmente no contexto das cenas. Ela recorre ora aquelas situações de discussão, ora a momentos de solidão reflexiva, onde as frases que surgem na mente da filósofa jorram para o espectador como sussurros justapostos, quase confusos até tomarem alguma forma. Momentos de solidão também marcados por um trabalho excessivo e marcante de sua personalidade, construídos em cenas onde vemos Hannah Arendt perdida em meio a pilhas e pilhas de papel; por vezes fazendo referência ao excesso de turmas, mas disposta a assumir mais. Na verdade, a relação com a docência é tão marcante que seu marido, Blücher, algumas vezes a chama por professora, e não pelo nome.

Essa figura do pensador é construída de modo sensível e excepcional por Trotta. A diretora consegue salientar características que são muito singulares ao fazer filosófico tal como o problema com prazos. Logo que Hannah Arendt solicita ao New Yorker para cobrir o julgamento de Eichmann, os editores discutem entre si a decisão de contratá-la ou não. E um dos argumentos apresentados é dito explicitamente: “Filósofos nunca cumprem os prazos”. E, em outro momento, após Arendt já ter retornado aos Estados Unidos e estar um bom tempo sem escrever uma linha, também é dito: “Tolstói escreveu Guerra e Paz em menos tempo”.

O caráter de recusa do tempo que o pensamento criativo exige é igualmente marcado por outros fatores sutis, mas emblemáticos ao longo do filme. Em uma aula de Alemão Avançado, Arendt não discute gramática alemã, mas sim suas ideias filosóficas com os estudantes. Tal liberdade e autoridade também é expressa na sala de aula em que ela se encontra: não há quadro e, portanto, ela somente discursa. A ideia de um pensador que expõe suas ideias livremente, sem recurso ao quadro, e que também fuma em sala de aula (a cena mostra um ritual: certa hora determinada um estudante se levanta e entrega a Arendt um cigarro e fogo, e ela segue sua exposição) parece mostrar a necessidade que um pensamento tão livre e tão original exija, construindo-se pela recusa com aquilo que poderia estagná-lo.

438554472_640Sintomática também é a relação da filósofa com os estudantes. Em sala de aula os alunos timidamente levantam os braços para realizar perguntas. Noutra cena, na frente da faculdade em que leciona a diretora produz uma separação: de um lado, Arendt saca o cigarro, de outro, do grupo de estudantes conversando, sai um e acende gentilmente o cigarro da professora. Ao invés de conversar com ela, retorna ao seu grupo e a cena ali se demora: a barreira invisível entre os estudantes e a professora não é uma barreira arbitrária, mas uma barreira socialmente aceita para aquele que livremente deixa-se levar por aquilo que pensa. Socialmente aceita porque quando a filósofa é pressionada pela instituição para se retirar, devido a polêmica de seu livro, Arendt responde: “não sei se vocês conversam com seus alunos, mas não vou me retirar porque minhas salas de aula não estão e nem ficarão vazias.” Em um tom claro de um professor que, destarte a autoridade intelectual, ocupa um lugar de troca com seus estudantes.

Outras duas cenas também constroem de modo muito sensível e consistente a figura do filósofo. Uma delas é quando, em uma das discussões que costumeiramente ocorria na sala de estar do casal Arendt e Blücher, alguém pergunta aonde ele fez seu doutorado. Arendt ri alto e diz: ele sequer concluiu o ensino médio. E arremata algo do tipo: para um pensador original, não é necessário diploma. (Note-se que Heinrich Blücher lecionava, sem diploma, em uma tradicional e renomada instituição de ensino americana, a Bard College). A outra cena é quando, em uma conversa com o editor-chefe do New Yorker, revisando o texto de Arendt, ele questiona uma palavra em grego antigo. Ele diz: bom, isso é grego e você deveria levar em conta o fato de que nossos leitores não leem grego. Arendt responde rápido, sem pestanejar: pois deveriam. O editor sorri, pensando que era uma piada. Arendt permanece séria, sem franzir a testa e, com um olhar de estranhamento, provoca um riso nervoso e constrangido dele. (Nesse momento, quem assistia o filme na sala de cinema caiu na gargalhada).

Um retrato da Filosofia

Em um texto do New York Times, lemos duas citações que gostaria de trazer aqui. Uma diz que Arendt em seu livro produziu excelente filosofia, mas péssima história. A outra citação diz que, embora o conceito de banalidade do mal tenha sido um importante construto da filósofa, foi instanciado por um péssimo exemplo. Margarethe Von Trotta é sensível a isso. Ao final do filme, após insistentemente recusar a dar manifestações públicas acerca de suas ideias, Hannah Arendt resolve discorrer para os membros da sua universidade, em um auditório, acerca das controvérsias do livro. Ao término do monólogo, Arendt encontra Hans Jonas, debruçado e cabisbaixo. Ela vai ao encontro dele que termina o mais breve que pode a conversa amarga em um tom ainda mais duro quando diz: “você fez da dor dos 6 milhões de Judeus uma tese de filosofia”.

cartaz-oficial-em-portugues-do-filme-hannah-arendt-de-margarethe-von-trotta---poster-nacional-1372808628507_300x420Iniciei este post dizendo que queria sugerir um outro ponto de vista para se pensar e utilizar o filme Hannah Arendt em sala de aula, que não aquele que visa o exemplar histórico, biográfico ou de um problema filosófico determinado. Não que ele não possa ser utilizado para mostrar sobre o julgamento de Adolf Eichmann, para materializar a figura e a personalidade de Hannah Arendt, ou para discutir sobre o conceito de banalidade do mal. Acho que são motivos possíveis e extremamente válidos para discutirmos sobre o filme.

Mas busquei mostrar aqui uma outra força do filme: uma narrativa exemplar da singularidade do processo intelectual filosófico. Processo marcado por uma busca (raras vezes bem sucedida, diga-se de passagem) de transposição de seu tempo histórico, inclusive de transposição de ideias compartilhadas. A busca pela originalidade, o demorar-se no seu próprio pensamento, a sustentação de um problema que retumba recursivamente na memória, a figuração de práticas muitas vezes excêntricas e até mesmo o desleixo com as coisas do dia-a-dia; atitudes comuns do fazer filosófico e muitas vezes construídas na forma de um clichê. Clichê que poucos filmes tem a sensibilidade de desconstruir.

*Obs: as citações de Margarethe Von Trotta foram retiradas do Press Book da produtora brasileira do filme, que pode ser baixado aqui.

** Agradeço a Júlia Dutra e Marden Müller por instigarem, cada um a seu modo, este texto.

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