Política para nós, professores

Passado o burburinho das eleições, podemos dizer que o país ganhou em termos de interesse das pessoas pela política. A política estava no comentário das pessoas, que discutiam (acaloradamente) as suas posições, assistiam aos debates e ao horário eleitoral. Para além disso, algumas pessoas não queriam participar da política institucional, ao pregar o voto nulo como um protesto que não tem nada de “apolítico” ou alienante, pelo contrário, marca uma posição política, ao se negarem a escolher candidatos que, para eles, não os representam. Sou otimista em relação ao futuro político do país e, quando falo em política, falo daquela do dia a dia, daquela que fazemos ao discutir os nossos problemas com familiares e amigos. A escolha de nossos representantes e o trabalho que eles exercem, por convenção e conveniência, é compreendida por muitos como a política em si, no entanto, essa visão é simplista e equivocada.

Sou professor de filosofia na rede estadual e sempre quando abordo este tema com os meus alunos, digo que, em termos de política, se você não decide, alguém decide por você. E isso acontece desde que resolvemos viver em sociedade, quando percebemos que é mais fácil conviver com os outros do que sobreviver sozinho. Para isso, o ser humano precisou – e ainda precisa – avançar em termos éticos, compreendendo que diferenças políticas se baseiam em opiniões sobre a sociedade que cada um, legitimamente, quer; portanto, opiniões e convicções políticas devem servir para aprimorar a nossa democracia e não dividir o povo entre os “do bem” e os “do mal”. Um dos princípios da democracia é a pluralidade de ideias, e aceitar que o outro pode pensar diferente de mim sem ser meu inimigo, é um sinal de civilidade, é sinal de inteligência moral, uma condição necessária para a boa vida política. Em política, só podemos “combater” ideias com bons argumentos e boas práticas que visem aprimorar o diálogo entre os diferentes, não é à toa que, para Aristóteles, a amizade é uma virtude moral essencial para a vida humana, pois quando trato as pessoas que convivem comigo como amigos, no sentido de pessoas que são importantes para a minha vida em sociedade, as trato com respeito.

Não obstante isso, o período eleitoral nos mostrou o que há de mais sombrio no ser humano e que não condizem com uma boa vida em sociedade, a saber, a intolerância, o racismo, a xenofobia e o preconceito social, elementos que nos dizem que algo está errado no Brasil. Política não se faz com o fígado e a bílis, mas com o cérebro, com a razão. É urgente que nós, professores, pautemos essa discussão com os nossos alunos, trabalhando o respeito à opinião dos colegas, condenando o racismo, problematizando opiniões preconceituosas, etc. Não adianta falarmos que esse tipo de educação vem de casa, pois é também nosso dever constitucional, enquanto educadores, formar o jovem cidadão. Precisamos de uma formação mais humanista e menos tecnicista para que, nas próximas eleições, atenuemos os discursos intolerantes e falemos mais de política, por conseguinte, de como melhorar a nossa própria vida levando em consideração a vida dos outros.

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Sobre Marcos Goulart

Doutorando em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul na Linha de Pesquisa "Estudos Culturais em Educação. Pertence ao Núcleo de Estudos sobre Currículo, Cultura e Sociedade (NECCSO)". Possui mestrado em Psicologia Social e Licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua como pesquisador em dois projetos de pesquisa vinculados à UFRGS, a saber, "A inclusão escolar e as avaliações em larga escala: efeitos sobre o currículo e o trabalho docente na Educação Básica" e "Educação e Micropolíticas Juvenis", ambos relacionados à educação escolar e à discussão sobre juventude. Os seus temas de pesquisa concentram-se nas temáticas avaliação em larga escala, culturas juvenis, ensino médio e ensino de filosofia.

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