Você acha o facebook uma fonte confiável para formação de opinião?

Há bastante discussão fora do Brasil acerca da confiabilidade da internet e seria muito bom se tivéssemos algo melhor estruturado e sistematizado para realizarmos essa discussão aqui. Por sinal, hoje pulou na minha linha do tempo uma reportagem do El País divulgando o primeiro estudo que analisa o algorítimo do facebook que seleciona aquilo que aparece nos nossos murais. O estudo realizado pelos cientistas sociais do facebook conclui que existe uma tendência dogmática na rede social, mas essa não é culpa do meio, mas dos usuários.

Ao curtir aquela reportagem o próprio facebook recomendou para mim um texto do Outras Palavras que critica a conclusão de que a culpa é dos usuários. A socióloga Zeynep Tufekci aponta que não foi considerada a probabilidade de um link ser clicado se ele está disposto no topo da página ou embaixo dela (a postagem original dela, em inglês, pode ser lida aqui). Desse modo: “A supressão automática de posições políticas diversas à nossa, somada às regras utilizadas para o ordenamento das postagens são dois elementos que se complementam e não podem ser analisados em separado.”. Em suma, a conclusão dos cientistas sociais do facebook de que a culpa é do usuário seria apressada.

Há muito o que se pensar quando uma ferramenta de relações sociais começa a se apresentar enquanto fonte de informação. É claro que há uma tendência natural de imaginar que nossas interações com outras pessoas nos proporciona informações corretas sobre o mundo. Mas talvez seja o caso de colocar um pouco de ceticismo nessa ideia.

Não acho que a confiabilidade do facebook possa ser atestada pela aprovação dos usuários, analogamente a uma faca que só é utilizada enquanto é útil. Muito provavelmente Platão tenha sido o primeiro a nos fazer duvidar de que a aprovação de uma ideia por uma maioria não deve ser tomada como evidência para que essa ideia seja correta ou verdadeira. Ainda mais quando observamos nosso contexto: um Brasil com crescentes tendências dogmáticas, preconceituosas e autoritárias.

É claro que não espero que dogmáticos, preconceituosos e autoritários mudem do dia para a noite. Mas é razoável esperar que boas fontes de informação sirvam para reduzir esses vícios sociais, por assim dizer. Ou seja, é razoável esperar que boas fontes de informação estimulem a mente aberta e o espírito crítico das pessoas.

Não sei se o facebook é essa espécie de Ágora contemporânea, mas acho bom que sua confiabilidade enquanto meio de formação de opinião seja posta à prova. Até para que as pessoas não pensem algo como: porque eu vi/li/curti/compartilhei no facebook, então tenho uma boa evidência para acreditar naquilo que vi/li/curti/compartilhei.

Assim como na “vida real”, um pouco de ceticismo não faz mal a ninguém.

* Agradeço a Thiago Santin pela conversa instigante que me motivou a escrever este texto.

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