Internet, opinião e política

c53ac91d78c7f428dd4f4fc3339a4413Não é novidade alguma que o Facebook pode ser uma fonte (no mínimo) problemática para a formação de opinião.  Isso já foi tópico de discussão aqui no bloguePor outro lado, é inegável que as redes sociais (e não só o Facebook) são mais e mais utilizadas para tal fim, especialmente em se tratando de opinião política. Se há argumentos práticos para a utilização das redes sociais, me parece bastante importante avaliar o impacto de tais práticas.

(*Imagem: “Gossip” de  Pawel Kuczynski)

É natural, quando encontramos evidência de que algo não é confiável, de entrarmos em um estado de dúvida. Isso poderia motivar alguém a dizer que se as redes sociais podem ser muito boas para uma série de fins, certamente não o são para a formação de opinião política. Assumindo que a democracia é um valioso bem político, se encontrarmos evidência de que as redes sociais colocam em risco nossos ideais democráticos, então teríamos uma razão para não utilizarmos tais ferramentas para a formação de opinião política (mas somente para outros fins).

Mas penso que antes desse veredito precisamos olhar para o funcionamento das redes sociais na nossa vida política. E precisamos ter em mente que é um fato de que elas estão sendo utilizadas para tal fim. Refletir sobre o uso político delas, independentemente da sua confiabilidade, traz um ganho porque aprendemos mais sobre como lidamos com as informações que recebemos. Afinal, precisamos ter em mente a hipótese das redes sociais não serem confiáveis porque os usuários não sabem distinguir e avaliar as informações que recebem. O risco aqui é de (um ou ambos): credulidade, onde o usuário dá mais crédito do que deveria as informações recebidas, ou dogmatismo, onde o usuário recusa-se a avaliar criticamente a informação recebida.

Em uma recente reportagem o El País remonta o histórico das eleições presidenciais nos EUA onde, de 2000 para cá foram testados, de quatro em quatro anos, uma ferramenta diferente. Do E-mail ao Snapchat o jornal aponta que a reeleição de Obama em 2012 foi a primeira 100% digital.

O colunista Jim Rutenberg, no Ny Times, aponta alguns fatores importantes de cada um dos meios. Se com o Facebook tivemos uma ampliação do alcance da informação e, com o Twitter um aumento na velocidade com que essa informação é transmitida,  a “inovação” com o Snapchat diz respeito a permanência da informação. Uma vez que o Snapchat apaga informações em no máximo 24 horas é preocupante imaginar o impacto disso especialmente acerca de escândalos políticos. Se considerarmos que um escândalo é uma informação importante que precisa ser considerada com cuidado para avaliarmos o caráter de um candidato, obviamente o Snapchat dificulta tal avaliação. Além disso, o caráter instantâneo parece transformar a importância da memória política em coisa do passado (com o perdão do trocadilho).

Creio que é óbvia a importância da memória política dos cidadãos para um cenário democrático mas, para deixar claro, ela é importante porque auxilia o indivíduo na tomada de decisão entre diferentes candidatos e/ou propostas políticas. Assim, se eu tenho mais evidência de que um candidato ou um partido está envolvido em um escândalo de corrupção, eu tenho uma boa razão para desconsiderar votar nele. (Seguindo essa linha vemos a importância de um eleitorado bem informado acerca de fatores sócio-históricos do seu país.)

Em um cenário onde a informação política é transmitida rapidamente, em larga escala, e é cada vez mais efêmera, temos um claro problema para a democracia que é a simplificação ou polarização do debate político. Em entrevista, Esther Solano, professora de Relações Internacionais da Unifesp explica melhor: é um cenário propício para um sujeito excessivamente focado nas manchetes, dificilmente confere a veracidade das informações que transmite e que encontra-se em uma rede de pessoas que pensam parecido.

Ou seja, credulidade para com a rede de pessoas que compartilham das mesmas ideias e dogmatismo para com aqueles que se opõe a elas. Tais problemas, do ponto de vista do sujeito, criam um cenário aonde a informação política tende a ser mais pobre de conteúdo – dado o foco nas manchetes. Os discursos ficam mais emotivos e menos racionais – como na substituição e um argumento por um meme. E o resultado final é o debate polarizado, porque excessivamente passional.

Construí aqui um argumento defendendo  que a esfera política está cada vez mais a serviço da irracionalidade. E, partindo do pressuposto que a democracia se constrói a partir de um ideal de debate racional, então a conclusão que se tira é de que a democracia está em risco.

Mas meu objetivo aqui não foi o de criar um ceticismo sobre o cenário democrático mas o de apontar riscos que estão envolvidos no uso das redes sociais. Apresentei razões que favorecem um argumento mas, que fique claro, isso por si só não o torna sólido: mostra a importância de uma maior investigação das razões apresentadas e seus pressupostos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s