Falácias, vieses e preconceitos

 

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Guerrilla Girls, Manhattan, 1985. Fonte: New York Times.

O que falácias, vieses e preconceitos tem em comum? Ou, o que maus argumentos que parecem bons; processos cognitivos que favorecem as preferências pessoais ao invés de fatos; e, atos de discriminação contra pessoas por conta de uma característica social, tem em comum? Além do fato de todos envolverem alguma falha cognitiva, nesse post vamos explorar a relação entre epistemologia, psicologia e ética dessas falhas.

Uma falácia é, grosso modo, um mau argumento que parece bom. Existem inúmeras falácias listadas em bons livros de lógica. Um exemplo é o seguinte: Leonardo está montando um grupo de pesquisa. Ele busca uma série de excelentes pesquisadores. Assim ele crê que “Todos os membros do grupo de pesquisa são, individualmente, pesquisadores excelentes”. E dessa crença ele infere “Então o grupo de pesquisa será excelente”.

O raciocínio acima é falacioso porque a inferência que Leonardo realiza não é suportada pela evidência que Leonardo possui. Afinal, ainda que todos os membros sejam individualmente excelentes, disso não se segue que eles sejam excelentes como um grupo. Esse caso serve para ilustrar duas coisas: uma, que quando lemos o raciocínio de Leonardo ele parece um bom raciocínio, quando de fato não é. Em segundo lugar falácias são contextuais. É possível que Leonardo possa realizar a inferência com base na crença sobre a competência individual dos pesquisadores, mas o importante é notar que é necessária mais evidência, ou seja, mais informações, para que Leonardo possa realizar competentemente a conclusão.

De um ponto de vista psicológico, talvez, poderíamos explicar a existência de falácias por conta da existência de vieses (biases). Vieses é um termo técnico da psicologia cognitiva que se refere a processos cognitivos que favorecem as preferências pessoais ao invés de fatos. Vieses podem ser explícitos ou implícitos. Filosoficamente vieses implícitos são mais desafiadores. Por exemplo, a psicologia cognitiva nos ensina que, embora qualquer um saiba que o preço de algo não reflete necessariamente o seu valor, ainda assim valorizamos coisas mais caras. Em um experimento pessoas foram submetidas ao seguinte teste: provar o vinho de duas garrafas — uma no preço de $10 e outra no preço de $90. O curioso é que massivamente as pessoas acharam o vinho com preço de $10 mais saboroso que o vinho de $90, apesar de serem o mesmo vinho (!). Outro efeito desse tipo de viés cognitivo é que quanto mais gostamos de um produto, o produto parece ser mais eficiente. Em outra pesquisa foram oferecidos exatamente o mesmo energético mas com preços distintos. O energético com o preço mais caro causou a sensação maior de estar energizado, e os indivíduos foram mais produtivos do que com o energético com preço mais barato, apesar da bebida ser a mesma.

O que é estarrecedor nesse tipo de viés cognitivo é que, mesmo sabendo dessa tendência no nosso comportamento, se alguém me oferecer agora duas garrafas de vinho, uma custando $10 e outra $90, ainda que eu saiba que são o mesmo vinho, muito provavelmente vou preferir a segunda. É por isso que ele é chamado de viés implícito.

Claramente nem todas as falácias são vieses. A pessoa pode raciocinar mal não por conta das suas preferências (como é o caso nos vieses), mas por conta de não ser competente em realizar inferências. E também nem todos os vieses são falácias. Mas no nosso exemplo fica fácil ver como a falácia pode ser produzida por um viés. Imagine que Leonardo está muito empolgado com o grupo de pesquisa, ele realmente quer que o grupo dê certo porque isso vai ser muito importante para a carreira dele. Assim, por conta das preferências de Leonardo ele parece estar disposto a formular um raciocínio que parece bom, quando na verdade não é.

De modo muito interessante vieses implícitos são filosoficamente intrigantes, particularmente quando descobrimos que eles explicam alguns de nossas ações de preconceito e estereótipo. Um preconceito é um tipo de ato de discriminação contra pessoas por conta de alguma característica que elas possuem. Muitas vezes características nossas nos incluem em determinados grupos sociais. O fato de eu ter a pele clara me coloca no grupo das pessoas brancas, o fato de eu vestir roupas masculinas e me comportar de determinada forma me coloca no grupo de pessoas do gênero masculino, o fato de eu não frequentar a igreja e criticar o catolicismo não me coloca no grupo das pessoas católicas. E muitas vezes um preconceito é sustentado por uma falácia de generalização apressada: porque muitas pessoas que se vestem com roupas masculinas são heterossexuais (um fato), alguém poderia inferir falaciosamente que Todas as pessoas que se vestem com roupas masculinas são heterossexuais (uma falsidade). Nesse sentido, preconceitos e estereótipos vão par a par com falácias.

Mas preconceitos e estereótipos também podem ir par a par com vieses. Por exemplo, imagine que Leonardo é uma pessoa defensora da igualdade de gênero. Contudo em uma recente seleção de emprego Leonardo desqualificou todas as candidatas mulheres, ainda que elas fossem tão competentes quanto os candidatos homens. Se o caso parece por demais artificial, ele nada mais é do que uma forma esquemática de apresentar pesquisas psicológicas realizadas com comitês de seleção. Inúmeros comitês são recorrentemente preconceituosos, a despeito do comitê como um grupo e as pessoas individualmente prezarem e buscarem uma sociedade mais igualitária e justa.

Um detalhe importante é que, diferentemente de um caso de preconceito que vai par a par com a falácia de generalização apressada, esse aqui não envolve qualquer falácia. Leonardo não realiza qualquer pensamento consciente sobre a igualdade de gênero. Até porque, se o fizesse, ele reconsideraria sua massiva desqualificação de mulheres.

Isso nos traz algumas lições e problemas. A primeira lição: é falso que “se eu conhecer meus vieses, então eu vou superá-los”. Essa falácia implica que boa parte dos nossos vieses, particularmente nossos preconceitos, são muito difíceis de serem superados. Mas o quão difícil? Responder a essa pergunta é complicado. Inúmeros filósofos e psicólogos tem se ocupado dessa questão e ainda não há um consenso como gostaríamos. Mas há algumas alternativas.

Uma delas é ressaltar a importância de contato com pessoas diferentes. Diferentes culturas, diferentes hábitos, diferentes etnias, diferentes gêneros nos fazem reconhecer nossas limitações cognitivas. Em um experimento psicológico foi notado que, por exemplo, retirar a foto e o nome do currículo de participantes de uma entrevista de emprego auxiliou a reduzir significativamente os vieses dos avaliadores — eles passaram a se focar mais na competência dos candidatos do que em fatores sociais.

Outra estratégia foi a de introduzir situações em que pessoas de grupos que são marginalizados socialmente pudessem relatar suas experiências. O relato de situações de preconceito auxilia os indivíduos a reconhecerem instâncias de preconceito (situações particulares) não através (ou pelo menos não exclusivamente através) do raciocínio, mas através da empatia.

Uma outra estratégia remonta a importância de grupos sociais e movimentos políticos. Muitas reformas dos nossos valores só puderam ser realizadas através da organização de pessoas em prol de alguma causa. Causas que explicitem situações de preconceito e discriminação são importantes para mobilizar não indivíduos, mas instituições a adotarem medidas como as duas anteriores.

Superar o preconceito não é tarefa fácil. E a literatura que discute vieses implícitos simplesmente nos apresenta uma constatação desse nível. Contudo isso não pode ser porta para a conclusão de que é impossível superar o preconceito: afinal, essa conclusão seria tão somente uma falácia.

Referências

Guia de falácias: http://criticanarede.com/falacias.html
Vídeos (em inglês) sobre vieses: youtube.com/playlist?list=PLtKNX4SfKpzVgBHC2buGxvQNaspGxdMQY
Texto (em inglês) sobre vieses implícitos: https://plato.stanford.edu/entries/implicit-bias/
Texto (em inglês) sobre falácias: https://plato.stanford.edu/entries/fallacies/
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