Arquivo do autor:Marcos Goulart

Sobre Marcos Goulart

Doutorando em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul na Linha de Pesquisa "Estudos Culturais em Educação. Pertence ao Núcleo de Estudos sobre Currículo, Cultura e Sociedade (NECCSO)". Possui mestrado em Psicologia Social e Licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua como pesquisador em dois projetos de pesquisa vinculados à UFRGS, a saber, "A inclusão escolar e as avaliações em larga escala: efeitos sobre o currículo e o trabalho docente na Educação Básica" e "Educação e Micropolíticas Juvenis", ambos relacionados à educação escolar e à discussão sobre juventude. Os seus temas de pesquisa concentram-se nas temáticas avaliação em larga escala, culturas juvenis, ensino médio e ensino de filosofia.

Publicidade do MEC sobre o “Novo Ensino Médio” vende gato por lebre

Na semana passada, o MEC (Ministério da Educação) começou a veicular uma propaganda na televisão e no rádio baseada numa pesquisa que dizia que 72% dos brasileiros aprovavam a Reforma do Ensino Médio. O comercial, assim como os anteriores, bate na tecla da “liberdade de escolha” e na defesa do “interesse dos jovens”.  Continuar lendo

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Podcast “Filosofia Pop” – Entrevista Ronai Rocha, que fala sobre a Filosofia no Ensino Médio

Ronai Rocha

Ronai Rocha

Murilo Ferraz e Marcos Carvalho Lopes recebem Ronai Rocha, doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e atualmente professor associado do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria para falar sobre Filosofia no Ensino Médio.

Ouça o programa no link abaixo:

http://filosofiapop.com.br/?powerpress_embed=1497-podcast&powerpress_player=mediaelement-audio

Filme “Solitário Anônimo” e o direito de morrer

Sinopse do filme: O filme mostra, por um lado, a vontade do Solitário Anônimo de pôr fim à sua própria vida. Ele é um homem estudado, formado em Direito e Filosofia pela Universidade de Brasília, mas decidiu se mudar para uma pequena cidade do interior de Goiás onde não conhecia ninguém. Foi morar longe de seus familiares para não preocupá-los pois queria morrer em paz. Por outro lado, o filme retrata o esforço dos profissionais de saúde em reanimar o Solitário Anônimo que fazia greve de fome há dias. Solitário Anônimo se ressente de que as pessoas acham que têm o direito de se preocupar com os outros, pois não o deixaram morrer. E diz que, se fosse corajoso, ele teria nascido japonês, já que lá é comum se suicidar.

Proposta de Trabalho: Utilizei este filme para discutir o direito de morrer com os alunos (3º ano do Ensino Médio). Antes de exibi-lo, pedi para os alunos se concentrarem nos argumentos possíveis para a defesa e condenação do “direito de morrer” apresentados pelo filme. Pedi, além disso, para os alunos fazerem o esforço para não ver o filme com alguns preconceitos como, por exemplo, tratar o caso do “Solitário Anônimo” como alguém que sofria um mal psíquico. Após a exibição do filme, pedi para cada aluno apresentar os argumentos que eram apresentados no filme e fui sistematizando no quadro. O intuito era pensar na relação do Estado e o Direito sobre a vida dos indivíduos. Pode ser desenvolvido um tribunal no qual uns alunos podem ser acusadores e outros defensores do “Solitário Anônimo”. Enfim, o filme pode ser trabalhado de muitas formas. O certo é que ele instigou muito os meus alunos.

O medo da “Doutrinação Ideológica” ou o alarmismo do neomacartismo tupiniquim

Professora formatando o pensamento dos alunos. Ao procurar o termo “doutrinação ideológica”, nos deparamos com esse tipo de imagem. O que causa certa perplexidade é que elas aparecem em sites que mencionam a ESP e ligados a Igrejas de várias orientações.

Há algum tempo venho pensando sobre o avanço de um movimento que julgo estranho tendo em vista o que reivindica: uma escola imparcial do ponto de vista político. Em linhas gerais, este movimento, a Escola Sem Partido (ESP), tem lutado para que os “abusos da liberdade de ensinar” não redundem numa doutrinação dos alunos por parte dos professores. No entanto, o que pode ficar claro, numa breve análise do site do movimento supracitado, é que há claramente uma visão de ideologia que demoniza uma orientação política, bem como propõe uma releitura jurídica acerca do trabalho docente em sala de aula. O movimento parte de pressupostos políticos e morais, da constatação da existência da doutrinação ideológica nas escolas brasileiras e, por fim, da possibilidade de uma escola complemente neutra no que diz respeito a questões políticas e sociais.

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Dinâmica para o ensino médio: “A Possível Fundação do Estado”

Hoje, nas minhas aulas de filosofia, para os terceiros anos do ensino médio, desenvolvi uma dinâmica que já desenvolvo há alguns anos, quando vou trabalhar com Política. Normalmente, seguindo a abordagem de Jonathan Wolff, em seu livro “Introdução à Filosofia Política“, que inicia falando da noção de “Estado de Natureza”, fiz uma dinâmica para que os meus alunos refletissem sobre o que há antes da ordem social. Ela consiste no seguinte:

  • Dividir as turmas em grupos;
  • Cada grupo deve ser uma espécie de estado pré-social;
  • Cada grupo deve criar uma lista de 3 princípios para que uma ordem social seja possível;
  • Dar uns 15 minutos, e depois pedir para que cada grupo apresente esses princípios, listando-os no quadro;
  • Depois de todos os grupos terem apresentados, e todos os princípios terem sido listados (desconsiderar princípios repetidos), pedir para os alunos pensarem em qual é o mais elementar, o mais fundamental;
  • Além disso, problematizar se alguns princípios não pressupõem a existência da sociedade (os alunos listam, que é preciso haver punição para crimes, liberdade de ir e vir, igualdade, etc., princípios que, obviamente, pressupõem a existência da sociedade). Dá para fazer uma boa discussão.

A abordagem do tema fica a critério do professor. E os princípios que os alunos vão apresentar são indefinidos. Na maioria das turmas eles falaram que era preciso eleger um líder. Nesse sentido, dá para fazer, nas devidas proporções, é claro, um gancho com a filosofia de Thomas Hobbes. Mas a ideia da atividade é apenas fazer um experimento mental e mostrar que esse tipo de reflexão foi muito desenvolvida no século XVII. Fica a dica aí.

Política para nós, professores

Passado o burburinho das eleições, podemos dizer que o país ganhou em termos de interesse das pessoas pela política. A política estava no comentário das pessoas, que discutiam (acaloradamente) as suas posições, assistiam aos debates e ao horário eleitoral. Para além disso, algumas pessoas não queriam participar da política institucional, ao pregar o voto nulo como um protesto que não tem nada de “apolítico” ou alienante, pelo contrário, marca uma posição política, ao se negarem a escolher candidatos que, para eles, não os representam. Sou otimista em relação ao futuro político do país e, quando falo em política, falo daquela do dia a dia, daquela que fazemos ao discutir os nossos problemas com familiares e amigos. A escolha de nossos representantes e o trabalho que eles exercem, por convenção e conveniência, é compreendida por muitos como a política em si, no entanto, essa visão é simplista e equivocada.

Sou professor de filosofia na rede estadual e sempre quando abordo este tema com os meus alunos, digo que, em termos de política, se você não decide, alguém decide por você. E isso acontece desde que resolvemos viver em sociedade, quando percebemos que é mais fácil conviver com os outros do que sobreviver sozinho. Para isso, o ser humano precisou – e ainda precisa – avançar em termos éticos, compreendendo que diferenças políticas se baseiam em opiniões sobre a sociedade que cada um, legitimamente, quer; portanto, opiniões e convicções políticas devem servir para aprimorar a nossa democracia e não dividir o povo entre os “do bem” e os “do mal”. Um dos princípios da democracia é a pluralidade de ideias, e aceitar que o outro pode pensar diferente de mim sem ser meu inimigo, é um sinal de civilidade, é sinal de inteligência moral, uma condição necessária para a boa vida política. Em política, só podemos “combater” ideias com bons argumentos e boas práticas que visem aprimorar o diálogo entre os diferentes, não é à toa que, para Aristóteles, a amizade é uma virtude moral essencial para a vida humana, pois quando trato as pessoas que convivem comigo como amigos, no sentido de pessoas que são importantes para a minha vida em sociedade, as trato com respeito.

Não obstante isso, o período eleitoral nos mostrou o que há de mais sombrio no ser humano e que não condizem com uma boa vida em sociedade, a saber, a intolerância, o racismo, a xenofobia e o preconceito social, elementos que nos dizem que algo está errado no Brasil. Política não se faz com o fígado e a bílis, mas com o cérebro, com a razão. É urgente que nós, professores, pautemos essa discussão com os nossos alunos, trabalhando o respeito à opinião dos colegas, condenando o racismo, problematizando opiniões preconceituosas, etc. Não adianta falarmos que esse tipo de educação vem de casa, pois é também nosso dever constitucional, enquanto educadores, formar o jovem cidadão. Precisamos de uma formação mais humanista e menos tecnicista para que, nas próximas eleições, atenuemos os discursos intolerantes e falemos mais de política, por conseguinte, de como melhorar a nossa própria vida levando em consideração a vida dos outros.

Princípios para uma aula de filosofia

Dar aula de filosofia no ensino médio, atualmente, não é uma tarefa tão complicada quanto há um tempo atrás. Hoje em dia, talvez pela obrigatoriedade do ensino de filosofia no ensino médio, é possível encontrar sugestões de aulas, livros didáticos, textos, etc., numa simples busca, numa “googleada”. No entanto, a meu ver, pouco se discute acerca de como devemos, ou melhor, quais as atitudes que devemos ter para que a aula seja efetivamente uma aula de filosofia.

Obviamente, ensinar filosofia não é solicitar que os alunos decorem trechos ou ideias dos filósofos, muito menos aprendam “valores”, isto é, se enquadrarem nos ideais morais de uma sociedade. Por outro lado, não quero defender aqui que os alunos devam aprender a ter um “senso crítico”, até porque não devemos achar que somente a filosofia tenha a atribuição de trabalhar com essa noção carente de definição – não vamos discutir isso aqui nesse texto.

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