Arquivo da categoria: Ensino de Filosofia

Resenha do livro O Sentido na Vida, de Susan Wolf

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Poderia haver um sentido na vida? E por que essa procura é importante?

O livro O Sentido na Vida, de Susan Wolf, oferece uma leitura transformadora, com uma linguagem simples, mas bem articulada, e que alia reflexões profundas. Quando ficamos convencidos da tese de Susan, ao final do livro constam pequenos textos de 4 autores objetando pontos centrais da tese de Wolf. Quando já estamos algo desacreditados do livro depois da participação desses autores, lemos na sequência a resposta de Wolf a cada uma das objeções. E ela se sai muito bem! Algumas críticas são particularmente interessantes e muito agudas. Essa dinâmica que inclui objeções de autores e, na sequência, a resposta da autora a cada uma das objeções levantadas, torna o livro especialmente interessante.

Gratidão imensa ao professor Desidério Murcho pela tradução. Pensei muito nisso… o papel dos tradutores… que descortinam todo um horizonte para um novo público, que provavelmente morreria privado do contato com ideias que lhes transformaram as vidas.

Susan Wolf começa considerando as razões que costumam basear as motivações humanas. Tradicionalmente, consideramos que agimos movidos por interesse próprio ou motivados pelo dever. Em outras palavras, agimos buscamos a nossa felicidade, nosso bem-estar ou para dar conta de um dever e, nesse caso, podemos agir contrariando o nosso bem-estar. Mas Susan Wolf chama a atenção para o fato de que essas duas motivações deixam de explicar a razão pela qual fazemos muitas e muitas coisas nas nossas vidas, talvez muitas entre as que consideramos principais. E quando tentamos explicar o que nos motiva, apelando apenas ao interesse próprio ou o ao chamamento do cumprimento de um dever, não conseguimos explicar satisfatoriamente a motivação de muitas das nossas ações. Quando você ajuda alguém, seu amigo, seu filho, seu irmão… e essa ajuda lhe custa um grande desconforto, lhe prejudica, lhe traz até problemas de mil formas… nessas situações você age motivado pelo interesse próprio? Só pensando em si? No próprio bem-estar? Na própria felicidade? Ou age pelo dever? Por que sente uma imposição moral? Um imperativo moral que lhe chama? Quando uma mãe ou um pai oferece os seus esforços pelo filho adorado, um amigo ajuda o outro, um irmão ajuda o outro, não fica estranho sempre tentar encaixar a motivação somente no interesse pessoal (felicidade) ou no dever (moralidade)? Susan Wolf sugere que há uma motivação poderosa nas nossa ações, que confere mesmo um sentido para a nossa vida. São as razões do amor. Tais razões estão relacionadas a quando você age motivado por algo independente, fora de você, e é o bem-estar desse outro que te move, não porque no fundo você quer agradar a si, ou porque sente que precisa cumprir um dever, mas por que esse projeto é amado por você.

Para Susan Wolf, uma vida com sentido é aquela em que nos dedicamos com entrega ativa, conscientemente, a projetos que amamos e que são meritórios, cujo valor vai além de nós. Essa entrega ativa a projetos que amamos e que são dignos de amor, nos enseja razões de sentido para as nossas vidas, o que nos possibilitará que construamos uma vida realizada. Portanto, uma vida com sentido, possui um componente subjetivo e um componente objetivo. O componente subjetivo é aquele baseado no sujeito, ele ama um projeto e a ele se entrega ativamente. O componente objetivo diz respeito ao valor objetivo do projeto, que de alguma forma contribui para algo mais vasto do que o próprio sujeito que ama.

E por que razão é importante esclarecer a noção de sentido na vida? Com a palavra, Susan Wolf:

“Ao oferecer uma explicação do sentido, cuidei principalmente de trazer à luz e esclarecer a existência desta dimensão do valor numa vida, distinta tanto da felicidade como da moralidade. Defendi que uma vida não se esgota no prazer nem no dever, e esbocei uma explicação de outra dimensão através da qual uma vida pode ser melhor ou pior. Estas ideias podem vir mesmo a calhar ao refletir sobre a nossa vida e ao dar-lhe uma direção, ao orientar as vidas dos nossos filhos e estudantes, ao dar forma a instituições sociais e ao formular objetivos políticos. Além disso, como defendi na segunda conferência, sem o conceito de sentido e um vocabulário com o qual possamos discuti-lo e explorá-lo, é natural que aceitemos concepções distorcidas da felicidade e da moralidade, que procuremos as coisas erradas, e que fiquemos perdidos ao tentarmos compreender o que está a correr mal.” (p. 149)

Esse livro está sendo tema das aulas de filosofia do 1º trimestre de 2018 dos alunos do 2º ano do ensino médio do Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho (Porto Alegre/RS).

Referência:

WOLF, Susan. O sentido na vida: e por que razão é importante. Tradução de Desidério Murcho. 1ª edição. Editorial Bizâncio: Lisboa, 2011.

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O ensino do ensino de filosofia

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Foto do físico Robert Oppenheimer por Philippe Halsman, 1958.

Na imagem de 1958, feita pelo fotógrafo Philippe Halsman, o físico Robert Oppenheimer encontra-se suspenso. Vemos o cientista, eternamente preso neste  instante atemporal, flutuando entre o chão e o teto, entre o possível e o impossível.

Para muitos de nós o hábito irá impedir a imaginação de projetar o físico vencendo a gravidade e alcançando o teto: porque vemos cotidianamente objetos serem “derrotados” pela lei da natureza torna-se impossível imaginar o contrário. Mas outros irão permitir-se, deixando a mente desafiar o hábito, criando assim o inusitado (senão utópico) cenário onde o físico ultrapassa as barreiras do natural e do possível.

Sonhar ser professor no Brasil, ainda mais nos dias de hoje, é como estar preso na cena de Halsman – somos seres presos em uma realidade que, talvez por teimosia, continuamos a desafiar. Continuar lendo

Técnicas de estudo e leitura de textos

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EnterFoto de Hiroko Masuike, registros centenários do tribunal testamentário de Nova York, The New York Times, jan, 2017 a caption

A despeito da abordagem que alguém trabalhe o ensino de filosofia, a leitura de textos é fundamental. Contudo, nem sempre sabemos como explicar o modo como um estudante precisa lidar com textos. Como parte do meu trabalho docente gastei algum tempo nisso e selecionei dois materiais simples e diretos. Penso que eles são importantes para que os estudantes da licenciatura em filosofia tenham material para instruírem seus estudantes quando esse tempo chegar. E a colega Andrea de Silveira resumiu eles, a fim de facilitar o acesso. Continuar lendo

Uma oficina de filosofia para crianças

tabaAo longo do ano de 2010 eu estive envolvido com oficinas de filosofia para o Ensino Fundamental. Naquele período, o fato de eu não ter recebido uma formação específica para trabalhar com crianças entre 10 e 13 anos pesou bastante. A minha estratégia para minimizar essas dificuldades foi através dos livros do Matthew Lipman, especialmente do Pimpa. Atualmente, no Rio Grande do Sul, a Universidade Federal de Pelotas está buscando remediar tal lacuna na formação de licenciados: eles recentemente lançaram um curso de especialização em ensino de filosofia. Continuar lendo

Os dez mandamentos de Bertrand Russell

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The New York Times, 1985, demonstração para libertar prisioneiros políticos porto-riquenhos

Em uma postagem do Facebook o economista Thomas Conti (o qual agradecemos pelo material) publicou uma tradução dos dez mandamentos, de acordo com o filósofo britânico Bertrand Russell. Retirados do texto “A melhor resposta ao fanatismo: liberalismo”, publicado no New York Times em 1951. Destaque para a ideia de liberalismo do autor, assim resumida: deve-se questionar tudo, se o questionamento estiver embasado em bons argumentos. Assim, fica clara a diferença entre o liberalismo do autor e daquele defendido e praticado pelos que se dizem “liberais” hoje no Brasil.

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Estudos de Gênero na sala de aula

valente_escola_sem_machismoEm tempos de Escola sem Partido e do Estatuto da Família, e de uma reação cada vez mais articulada contra a criação de espaços de discussão a respeito de diversidade e igualdade nas escolas brasileiras, a ONU Mulheres lançou, no início de 2017, o projeto “O Valente não é Violento“,  com o objetivo de “estimular a mudança de atitudes e comportamentos dos homens, enfatizando a responsabilidade que devem assumir na eliminação da violência contra as mulheres e meninas”. Parte integral dessa iniciativa é o estímulo e o incentivo à discussão de questões relativas à violência e diversidade de gênero e étnica-racial no espaço escolar. Continuar lendo

Resenha do livro Justiça, de Michael Sandel

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Olá, pessoal!

Andei pensando e minha ideia é periodicamente compartilhar com vocês algumas percepções minhas sobre algum livro cujo conteúdo foi importante para mim na preparação de aulas de filosofia e que acredito que possa beneficiar outros professores, bem como ao público em geral sensível à reflexão filosófica. Aprendo muito comunicando meus acertos e percebo que, muitas vezes, aprendo ainda mais comunicando meus erros. Disso, concluo que dialogar é bom. Nos faz perceber que estamos no caminho certo, dando-nos força para continuar, quando acertamos. E nos fazer mudar a rota, quando somos advertidos de que estamos equivocados; o que é ótimo, pior é permanecer no erro.

Nesse espírito de partilha, vou em frente. Continuar lendo