Arquivo da categoria: Filosofia Política

Falácias, vieses e preconceitos

 

1mxc1v-936gifhnllqrfeja

Guerrilla Girls, Manhattan, 1985. Fonte: New York Times.

O que falácias, vieses e preconceitos tem em comum? Ou, o que maus argumentos que parecem bons; processos cognitivos que favorecem as preferências pessoais ao invés de fatos; e, atos de discriminação contra pessoas por conta de uma característica social, tem em comum? Além do fato de todos envolverem alguma falha cognitiva, nesse post vamos explorar a relação entre epistemologia, psicologia e ética dessas falhas. Continuar lendo

Resenha do livro Justiça, de Michael Sandel

sandel

Olá, pessoal!

Andei pensando e minha ideia é periodicamente compartilhar com vocês algumas percepções minhas sobre algum livro cujo conteúdo foi importante para mim na preparação de aulas de filosofia e que acredito que possa beneficiar outros professores, bem como ao público em geral sensível à reflexão filosófica. Aprendo muito comunicando meus acertos e percebo que, muitas vezes, aprendo ainda mais comunicando meus erros. Disso, concluo que dialogar é bom. Nos faz perceber que estamos no caminho certo, dando-nos força para continuar, quando acertamos. E nos fazer mudar a rota, quando somos advertidos de que estamos equivocados; o que é ótimo, pior é permanecer no erro.

Nesse espírito de partilha, vou em frente. Continuar lendo

Internet, opinião e política

c53ac91d78c7f428dd4f4fc3339a4413Não é novidade alguma que o Facebook pode ser uma fonte (no mínimo) problemática para a formação de opinião.  Isso já foi tópico de discussão aqui no bloguePor outro lado, é inegável que as redes sociais (e não só o Facebook) são mais e mais utilizadas para tal fim, especialmente em se tratando de opinião política. Se há argumentos práticos para a utilização das redes sociais, me parece bastante importante avaliar o impacto de tais práticas.

(*Imagem: “Gossip” de  Pawel Kuczynski)

Continuar lendo

Filme “Solitário Anônimo” e o direito de morrer

Sinopse do filme: O filme mostra, por um lado, a vontade do Solitário Anônimo de pôr fim à sua própria vida. Ele é um homem estudado, formado em Direito e Filosofia pela Universidade de Brasília, mas decidiu se mudar para uma pequena cidade do interior de Goiás onde não conhecia ninguém. Foi morar longe de seus familiares para não preocupá-los pois queria morrer em paz. Por outro lado, o filme retrata o esforço dos profissionais de saúde em reanimar o Solitário Anônimo que fazia greve de fome há dias. Solitário Anônimo se ressente de que as pessoas acham que têm o direito de se preocupar com os outros, pois não o deixaram morrer. E diz que, se fosse corajoso, ele teria nascido japonês, já que lá é comum se suicidar.

Proposta de Trabalho: Utilizei este filme para discutir o direito de morrer com os alunos (3º ano do Ensino Médio). Antes de exibi-lo, pedi para os alunos se concentrarem nos argumentos possíveis para a defesa e condenação do “direito de morrer” apresentados pelo filme. Pedi, além disso, para os alunos fazerem o esforço para não ver o filme com alguns preconceitos como, por exemplo, tratar o caso do “Solitário Anônimo” como alguém que sofria um mal psíquico. Após a exibição do filme, pedi para cada aluno apresentar os argumentos que eram apresentados no filme e fui sistematizando no quadro. O intuito era pensar na relação do Estado e o Direito sobre a vida dos indivíduos. Pode ser desenvolvido um tribunal no qual uns alunos podem ser acusadores e outros defensores do “Solitário Anônimo”. Enfim, o filme pode ser trabalhado de muitas formas. O certo é que ele instigou muito os meus alunos.

Dinâmica para o ensino médio: “A Possível Fundação do Estado”

Hoje, nas minhas aulas de filosofia, para os terceiros anos do ensino médio, desenvolvi uma dinâmica que já desenvolvo há alguns anos, quando vou trabalhar com Política. Normalmente, seguindo a abordagem de Jonathan Wolff, em seu livro “Introdução à Filosofia Política“, que inicia falando da noção de “Estado de Natureza”, fiz uma dinâmica para que os meus alunos refletissem sobre o que há antes da ordem social. Ela consiste no seguinte:

  • Dividir as turmas em grupos;
  • Cada grupo deve ser uma espécie de estado pré-social;
  • Cada grupo deve criar uma lista de 3 princípios para que uma ordem social seja possível;
  • Dar uns 15 minutos, e depois pedir para que cada grupo apresente esses princípios, listando-os no quadro;
  • Depois de todos os grupos terem apresentados, e todos os princípios terem sido listados (desconsiderar princípios repetidos), pedir para os alunos pensarem em qual é o mais elementar, o mais fundamental;
  • Além disso, problematizar se alguns princípios não pressupõem a existência da sociedade (os alunos listam, que é preciso haver punição para crimes, liberdade de ir e vir, igualdade, etc., princípios que, obviamente, pressupõem a existência da sociedade). Dá para fazer uma boa discussão.

A abordagem do tema fica a critério do professor. E os princípios que os alunos vão apresentar são indefinidos. Na maioria das turmas eles falaram que era preciso eleger um líder. Nesse sentido, dá para fazer, nas devidas proporções, é claro, um gancho com a filosofia de Thomas Hobbes. Mas a ideia da atividade é apenas fazer um experimento mental e mostrar que esse tipo de reflexão foi muito desenvolvida no século XVII. Fica a dica aí.

Política para nós, professores

Passado o burburinho das eleições, podemos dizer que o país ganhou em termos de interesse das pessoas pela política. A política estava no comentário das pessoas, que discutiam (acaloradamente) as suas posições, assistiam aos debates e ao horário eleitoral. Para além disso, algumas pessoas não queriam participar da política institucional, ao pregar o voto nulo como um protesto que não tem nada de “apolítico” ou alienante, pelo contrário, marca uma posição política, ao se negarem a escolher candidatos que, para eles, não os representam. Sou otimista em relação ao futuro político do país e, quando falo em política, falo daquela do dia a dia, daquela que fazemos ao discutir os nossos problemas com familiares e amigos. A escolha de nossos representantes e o trabalho que eles exercem, por convenção e conveniência, é compreendida por muitos como a política em si, no entanto, essa visão é simplista e equivocada.

Sou professor de filosofia na rede estadual e sempre quando abordo este tema com os meus alunos, digo que, em termos de política, se você não decide, alguém decide por você. E isso acontece desde que resolvemos viver em sociedade, quando percebemos que é mais fácil conviver com os outros do que sobreviver sozinho. Para isso, o ser humano precisou – e ainda precisa – avançar em termos éticos, compreendendo que diferenças políticas se baseiam em opiniões sobre a sociedade que cada um, legitimamente, quer; portanto, opiniões e convicções políticas devem servir para aprimorar a nossa democracia e não dividir o povo entre os “do bem” e os “do mal”. Um dos princípios da democracia é a pluralidade de ideias, e aceitar que o outro pode pensar diferente de mim sem ser meu inimigo, é um sinal de civilidade, é sinal de inteligência moral, uma condição necessária para a boa vida política. Em política, só podemos “combater” ideias com bons argumentos e boas práticas que visem aprimorar o diálogo entre os diferentes, não é à toa que, para Aristóteles, a amizade é uma virtude moral essencial para a vida humana, pois quando trato as pessoas que convivem comigo como amigos, no sentido de pessoas que são importantes para a minha vida em sociedade, as trato com respeito.

Não obstante isso, o período eleitoral nos mostrou o que há de mais sombrio no ser humano e que não condizem com uma boa vida em sociedade, a saber, a intolerância, o racismo, a xenofobia e o preconceito social, elementos que nos dizem que algo está errado no Brasil. Política não se faz com o fígado e a bílis, mas com o cérebro, com a razão. É urgente que nós, professores, pautemos essa discussão com os nossos alunos, trabalhando o respeito à opinião dos colegas, condenando o racismo, problematizando opiniões preconceituosas, etc. Não adianta falarmos que esse tipo de educação vem de casa, pois é também nosso dever constitucional, enquanto educadores, formar o jovem cidadão. Precisamos de uma formação mais humanista e menos tecnicista para que, nas próximas eleições, atenuemos os discursos intolerantes e falemos mais de política, por conseguinte, de como melhorar a nossa própria vida levando em consideração a vida dos outros.

Diálogos com a escola: experiências em formação continuada em filosofia na ufrgs

O livro é resultado do Curso de Formação Continuada em Filosofia para professores do Ensino Médio no Rio Grande do Sul, realizado entre 2012 e 2013 sob a coordenação da professora Priscilla Tesch Spinelli do Departamento de Filosofia da UFRGS. O curso é uma das parcelas do FORPROF UFRGS, que por sua vez faz parte do Plano Nacional de Formação dos Profissionais da Educação Básica do Ministério da Educação, o PARFOR.

Continuar lendo